Trazes as sobras de comida do restaurante?

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       Hoje esta publicação serve para vos levar a pensar num dos temas mais importantes a falar por um estilo de vida mais sustentável e de combate ao desperdício: o desperdício alimentar. Neste contexto, havemos de falar desta versão em diversos contextos, mas neste artigo irei abordar o desperdício de comida em restaurantes. Porque é que em Portugal, ao contrário de tantos outros países desenvolvidos, não temos esta prática de trazer o que sobra de uma refeição no restaurante? Trazes as sobras de comida do restaurante? Vou-vos contar uma história que se passou em Setembro passado, comigo e com o meu marido, que nos fez mudar completamente a nossa perspectiva.

 

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Trazes as sobras de comida do restaurante?

       O ano passado, numa altura em que se podia fazer um turismo interno, em Portugal, fomos comemorar o nosso primeiro ano de casados a passear pela zona norte. Em primeiro lugar, fomos ao Gerês que há muito queríamos visitar. Adianto desde já que devia ser imperativo todos os portugueses e todas as pessoas que visitam Portugal conhecerem este local incrível! Bom, mas o assunto prioritário não é nada este. Foi-nos recomendado um restaurante onde poderíamos encontrar o melhor arroz de cabidela do país (mais conhecido por estas terras por pica no chão) e nós fomos do Gerês a Vila Verde para comer de propósito o tal prato. Sim, eu não como carne e o prato preferido do meu marido até sangue da galinha leva, a prova em como os opostos se atraem. Mas vendo bem as coisas, é um prato muito sustentável, onde se aproveita até o sangue da galinha… [Se tiverem interesse, partilho um artigo com base científica sobre qual é a dieta mais sustentável].

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       O restaurante tem o prémio de ouro pelo seu arroz de cabidela. É o restaurante Torres que representa desde 1968, o legado gastronómico deste concelho. Dizem até que Vila Verde é a capital do Pica no Chão. Então faria todo o sentido mimar o meu marido na noite em que fazíamos um ano de casados, com a melhor cabidela do país, como referia. Fomos lá de propósito para esta refeição. Quando lá chegámos, pedimos meia dose deste prato e eu pedi uma meia dose de um prato de bacalhau. Vários funcionários do restaurante insistiram para que só se pedisse um prato para dois, porque eram pratos muito grandes para uma só pessoa. Sinceramente, tenho que vos informar que achei de início uma postura rude, até porque lhes tínhamos explicado que eu não comia carne por questões éticas e que o Pedro tinha lá ido de propósito para provar o tal arroz de cabidela. Só que entretanto chegaram as meias doses gigantes e aí percebemos o que queriam dizer!

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       Claro está que comemos um terço das meias doses, que eram bastante volumosas mesmo! Ficámos de barriga cheia e cheios de pena da comida que seria desperdiçada. Nessa altura vieram perguntar-nos se queríamos levar a comida que havia sobrado. Ora, estamos a falar de um sítio ainda longe do local onde ficava a nossa pousada, em tempos de muito calor, principalmente durante o dia. Estávamos ainda num quarto pequeno sem acesso a frigorífico ou microondas, portanto era mais do que evidente que a comida se ia estragar se a trouxéssemos. Explicámos isto, muito constrangidos pelo desperdício. O senhor era tão simpático e prestativo que nos sugeriu até voltarmos no dia seguinte que ele aquecia o prato, sem nos cobrar extras! Achei mesmo muito simpático da parte dele, já que não tinha que o fazer! Mas claro que tivemos que recusar, porque estaríamos ali cerca de 3 dias entre a ida e volta para Lisboa de carro e queríamos também conhecer o local em que ficámos, além dos gastos. Garantiu-nos que a comida ia para os animais, o que é menos desperdício. No entanto, foi algo que nos ficou na cabeça e nos marcou. Ditámos que a partir dali, devíamos verificar primeiro os restaurantes a que vamos, procurar ficar num local com, pelo menos, mini-frigorífico, e faríamos sempre por pedir para trazer a comida que sobrar. Porque ali poderiam dar aos animais que criavam, só que em tantos e tantos outros restaurantes a comida vai directamente para o lixo!

       Foi um choque enorme, mas foi também uma aprendizagem! Acabou por ser o clique para despertarmos a este nível de consciência de desperdício alimentar. Agora não vamos a restaurantes, porque à altura em que escrevo este artigo vivemos a pandemia despoletada pelo vírus Covid-19 e estamos todos num confinamento, em decretado Estado de Emergência, pelo que os restaurantes se encontram encerrados, a não ser para pedidos de take-away. Contudo, uma coisa vos garanto: passaremos a ter marmitas vazias e limpas no carro para eventuais casos destes, e tentaremos pedir as sobras em restaurantes.

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       Quando coloquei esta partilha de informação e estas imagens no instagram, recebi mensagens e comentários de várias ocasiões em que trabalhadores em restaurantes não reagiam bem ao pedido para trazer sobras. Pergunto qual o motivo. Afinal, podem ganhar dinheiro com o recipiente onde entregam a comida que sobra e não geram desperdício alimentar. A sério que não entendo o motivo pelo qual reagem mal! Isso inibe que se peça mais vezes as sobras noutros locais. Em Portugal, temos este costume de deixar estragar, de nos refugiarmos atrás da vergonha (por trazer algo que pagámos para ingerir!). Não se justifica! Claro que não estou obviamente a referir-me a all you can eat/ buffets. Aí calculo que também haja desperdício, mas é um regime diferente. Agora quando pagamos por uma dose de comida, essa dose é nossa e deveríamos poder fazer com ela o que quiséssemos, já que pagámos por ela!

       Também recebi muitas mensagens de várias pessoas a informar que noutros países faz parte da cultura evitar esse desperdício e onde quem trabalha nos restaurantes pergunta de imediato se quer levar as sobras. Assim de memória o único restaurante que nos questionou se queríamos trazer para casa sobras foi o Taybeh (restaurante de comida síria, em Moscavida, Lisboa). Primeiro porque não costumamos pedir mais do que tencionamos consumir, pelo que não costuma haver desperdício. Depois porque ainda não tínhamos efectivamente consciência do que estávamos a fazer e não existe este tipo de cultura ainda, em Portugal. Agora já temos consciência do que significa e por isso venho aqui expor esta consciencialização.

       Em suma, venho aqui deixar-vos o meu testemunho e a minha mudança de hábitos, mas venho também lançar o desafio a quem não tem este hábito, de mudar comigo. Começa a pedir as sobras da comida que não consumiste na refeição que comeste num restaurante. Eu entrego o que sobra de refeições quando cá vem alguém comer a casa. Se eu até faço isso na casa da minha mãe, se a minha sogra (desculpe, Lucinda que eu sei que não gosta do termo) me dá o restante das refeições vegetarianas que faz para mim, por qual razão não o faço quando paguei por aquela comida? Tem que mudar e a mudança tem que partir de mim e de ti. Alinhas comigo? Trazes as sobras de comida do restaurante? Iniciamos juntos o movimento #pedeassobras ?

 

Terra Chama Telma + blogue português sobre sustentabilidade e combate ao desperdício

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2 thoughts on “Trazes as sobras de comida do restaurante?

  1. À mais de 15 anos que trago as sobras dos restaurantes. Nunca tive qq vergonha em pedir.
    Uma vez, num restaurante conhecido do nordeste transmontano, almocei cozido e sobrou. Pedi, como sempre para trazer o que sobrou e fui ao carro duas caixas. Qual o espanto, quando cheguei a casa, que ficaram com as carnes e o fumeiro, colocando só batatas e hortaliças. Isto aconteceu em no ano de 2003.
    Hoje os donos ou empregados já vêem como um ato normal levar a comida que sobra, afinal ela está paga.
    Deveria ser obrigatório, questionar os clientes se querem trazer o que sobrou.
    Há espaços que se pagam pelos alumínios.

    1. Há muito tempo que várias pessoas pedem para trazer. Felizmente cada vez é mais frequente. Não me costuma acontecer ter sobras, que nós partilhamos comida, em regra geral. Mas de facto devia ser banalizado este pedido, já que pagámos por ele. Infelizmente ainda há muito caminho a percorrer. Infelizmente ainda recebi muitas queixas de pessoas que foram olhadas de lado ou tinham histórias semelhantes a estas por pedirem para levar as sobras do que pagaram para comer. Não entendo e é algo a mudar! Tem toda a lógica pagar-se pelas embalagens, pois os restaurantes também as pagam. Podemos é levar as nossas próprias caixas, mas logo vemos como corre no pós-pandemia…

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